Vladislau III Jagelão, lituano, chefe de grande dinastia, converteu-se ao cristianismo por amor ao trono da Polônia, antes que por amor à princesa Edniges, herdeira da coroa. Entre as boas coisas realizadas enumera-se a criação em 1400 da célebre Universidade de Cracóvia. Nela, poucos anos depois, ocupou a cátedra de filosofia e teologia João Câncio, como ele próprio se chamava, pelo costume de traduzir para o latim os nomes nórdicos.

João nasceu em Kety, pequena localidade da Polônia, em 1390. Em Cracóvia fez os seus estudos, laureou-se e foi ordenado sacerdote. Obteve a cátedra universitária no momento em que a controvérsia hussita se tornava mais acesa. João discutiu com vários opo-sitores, recebendo nestas disputas mais insultos que argumentações objetivas. Quando a sua humildade e a sua paciência eram postas à prova, sem perder a costumeira serenidade de espírito, se limitava a responder: “Graças a Deus!”

Na qualidade de preceptor dos príncipes da Casa real polonesa, às vezes não podia se subtrair à participação de alguma festa mundana. Um dia se apresentou a um banquete com roupas humildes e um doméstico o pôs porta afora. João foi se trocar e voltou ao lugar onde se dava a recepção. Desta vez pôde entrar, mas durante o almoço um servente desastrado esvaziou um copo nas suas vestes. João sorriu afirmando: “Está certo que também a minha roupa tenha a sua parte, foi graças a ela que pude entrar aqui”.

Tanto nas pequenas como nas grandes adversidades, João teve sempre em mira algo de bem superior ao prestígio, à carreira e ao bem-estar materiais: “Mais para o alto!”, repetia frequentemente querendo exprimir com este lema o seu programa de vida ascética. Ele se distinguiu sobretudo pela caridade evangélica, com uma marca claramente franciscana.

Durante uma de suas peregrinações a Roma, a diligência em que viajava foi assaltada e depredada por um grupo de bandidos, que infestavam os arredores de Roma. Também João foi roubado mas percebendo que no fundo de um bolso tinha ficado uma moeda de prata, correu atrás dos bandidos, dizendo: “Vocês esqueceram esta”. O biógrafo, que conta o episódio, afirma que os bandidos, comovidos, restituíram todo o dinheiro do assalto. Morreu em Cracóvia, com a idade de oitenta e três anos, na noite de Natal de 1473 e foi canonizado em 1767. A memória do santo, celebrada a 20 de outubro, foi agora trazida para mais perto da data de sua morte.

Extraído do livro:
Um santo para cada dia, de Mario Sgarbossa e Luigi Giovannini

 

Por Pe. Gottardo,SJ

Ao enviar os discípulos a missionar Jesus os instruiu com recomendações práticas e bem objetivas: “Não leveis bolsa nem mochila, nem calçado e a ninguém saudeis pelo caminho” (cf. Lc 10,4).

Sócrates, filósofo grego, que morreu no ano 399 antes de Cristo, gostava de espairecer o juízo percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores das “lojas” o assediava, respondia: “Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz”.

Jesus exige liberdade e leveza dos seus seguidores. É condição de possibilidade para viajar e seguir o caminho do evangelho. Levar apenas o essencial… Na lógica da economia arte é multiplicar os bens, ter/possuir sempre mais; na lógica da espiritualidade cristã arte é repartir e ter sempre menos.

No anúncio do Reino é importante ser respeitoso e não impor nada a ninguém. Respeitar implica em não ser um fardo pesado (cruz) para ninguém. O teólogo Marco Pedron nos ajuda a compreender o significado do respeito.

Respeito (do latim respicio) significa olhar para trás, equivale ao exercício de andar pelas montanhas: de vez em quando é bom olhar para trás para ver se os companheiros estão bem e/ou se estão passando por dificuldades; se não forem vistos, é preciso esperá-los e/ou procurá-los.

Respeitar significa levar em consideração o outro com suas necessidades, o que pode ser muito diferente das minhas.

Respeitar significa não praticar a violência, não viver enganando os outros e na falsidade.

Respeito significa aceitar as escolhas dos outros, mesmo que não estejam em conformidade com as minhas expectativas.

Respeitar significa reconhecer o direito à vida de toda criatura.

Respeitar é aceitar que eu também faço parte do processo evolutivo da criação de Deus. O sol, as plantas, as ervas, a água, os animais, etc. são criaturas do mundo e de Deus: respeitá-las é preciso para o equilíbrio da Casa Comum.

Abandonar um cão (em casa, por exemplo) porque se está de férias chega a ser cruel; bem como maltratar outros animais, jogar lixo em qualquer lugar, atirar latas de cerveja no asfalto, etc. É falta de respeito e falta de educação também.

Tudo o que existe merece respeito pelo simples fato de existir.

“Paz a esta casa!”. Pedron lembra que Paz (shalom em hebraico) indica tudo o que o ser humano precisa para o bem viver: paz, plenitude de vida, bem-estar, felicidade, alegria, etc. Em grego, eirene (tradução de shalom) indica bem-estar e tranquilidade, onde não há conflito nem desamor. O termo latino pax, paz, vem da pacisci que significa conduzir negociações, concluir um pacto, fazer contrato. A paz acontece quando se estabelece regras consensuais e comuns.

Se a pessoa está sempre em guerra consigo mesma, onde quer que esteja haverá violência. Há pessoas que não têm paz interior, não estão pacificadas, estão sempre cheias de raiva e de agressividade; há uma guerra permanente em suas entranhas. Essas pessoas são “uma sarna” que produz coceira em todos.

Uma flor não precisa propagandear seu perfume, sua fragrância difunde-se por si mesma. “Bonum est diffusivum sui”. Assim somos nós. Se temos paz interior onde quer que estejamos exalamos o bom perfume da paz e do equilíbrio. Se estamos em guerra, produzimos estragos terríveis e deixamos escombros e uma triste memória por onde passamos.

Um jornalista, encantado com o estilo de vida de Madre Teresa, escreveu: “Com ela sentia-me em casa. Difundia-se nela uma aura de paz em tudo o que ela dizia e fazia. Era como entrar numa dimensão em que brigas, conflitos, competições, comparações, raiva, etc. não existem“.

Por fim, Jesus vibra com o sucesso dos discípulos no desempenho da missão a eles confiada, mas corrige-os em tempo: “Não vos alegreis porque os espíritos vos estão sujeitos, mas alegrai-vos de que os vossos nomes estejam escritos nos céus (cf. Lc 10,20).

Nós passamos e nossos nomes serão esquecidos. Cinquenta anos depois da nossa morte (talvez cem) ninguém mais se lembrará de nós. Os nomes escritos na terra desaparecem, mas os nomes escritos no céu permanecem para sempre. Estão protegidos e salvos; estão na palma da mão de Deus, ninguém consegue arrancá-los.

No coração de Deus, nenhum nome cai na tumba do esquecimento. No coração de Deus há espaço para todos os seus filhos/as desde que não Lhe sejamos surdos, indiferentes e incrédulos. “Não vos iludais; de Deus não se zomba. O que o homem semear, isso colherá” (cf. Gl 6,7).

Por Pe. Gottardo,SJ

Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (cf. Jo 13,34), afirma o Senhor, depois de ter lavado os pés dos discípulos. E arremata: “Se desejais serem reconhecidos como meus discípulos/amigos “deveis amar uns aos outros” (v. 35). O antigo mandamento do amor, que dizia “amar Deus e ao próximo como a si mesmo”, tornou-se novo porque foi completado com o diferencial “como eu vos amei” que muda tudo. Em Jesus o metro do amor não é mais o eu/outro, mas Deus mesmo. “A medida do amor é amar sem medida” (Santo Agostinho) a ponto de entregar a própria vida.

Ao discursar para jovens o Papa Francisco foi enfático: “O amor é a carteira de identidade do cristão, é o único documento válido para sermos reconhecidos como discípulos de Jesus. Se este documento perde a validade e não se renova deixamos de ser testemunhas do Mestre”. Tornamo-nos farsantes, hipócritas. Só quando a fé professada se torna amor ofertado a religião se torna credível e confiável.

Quem honestamente procura o rosto de Deus encontra-o no amor! Podemos afirmar que o amor é o lugar da revelação (epifania) da presença de Deus. Onde o amor se torna o estilo de vida aí Deus está. Jesus ensina que o lugar onde Deus vive é no coração de quem ama. Onde há uma pessoa ou mais pessoas que amam e servem, Deus aí está. Há um hino antigo e bem conhecido que proclama alto e bom tom: Ubi caritas et amor, Deus ibi est (“onde reina a caridade/amor, Deus aí está”).

Porém, o amor não pode ser mensurado e avaliado pelo número de missas e/ou terços e/ou práticas religiosas… É contraditório dizer-se “religioso” e viver para si mesmo, encastelado e confortavelmente aconchegado nas comodidades que o mundo oferece, incapaz de fazer-se solidário com aqueles que são humilhados e desprezados pelos corruptos de sempre… “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (cf. Jo 13,35). Quem se diz cristão e sente horror a pobre, por exemplo, é mentiroso e a religião que professa um chiste.

Amor não se confunde com tagarelice religiosa nem com demagogia. Sobre esta matéria, o sábio Santo Inácio de Loyola era bem realista e objetivo: “o amor deve-se por mais em obras que em palavras”. Conta-se que numa determinada ocasião, um repórter ao ver Madre Teresa de Calcutá dando banho em um leproso com incomum alegria, disse: “nem por um milhão de dólares eu faria isto!”. Ao que Madre Teresa responde: “O senhor não daria banho num leproso nem por um milhão de dólares? Eu também não. Só por amor se pode dar banho a um leproso”.

Vivemos num tempo em que pululam crendices, mas a fé é raridade. Por isso, cabe algumas questões: ainda há espaço para Deus e/ou me contento com as especulações teóricas e com as conquistas das ciências (ídolos)? Onde e como busco Deus? Onde imagino encontrá-lo? Nos milagres? Nas aparições? Na natureza? Na racionalidade? Quiçá num aperto de mão carregado de afeto e de verdade?! Em uma estátua de Nossa Senhora que chora em algum jardim, ou em um amigo que se confia e desabafa comigo seus dramas existenciais? Em uma ação espetacular e forte, ou numa relação amável, acolhedora e reverencial do outro como o fez Jesus?

Certamente, o amor comunicado e vivido por Jesus não pode ser baixado num aplicativo que se descarrega no celular nem se confunde com experiências fugazes tão bem descrito por Vinicius de Moraes: “Que o amor não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. O amor é pura gratuidade. Drummond é assertivo: “Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga”. Assim deve ser compreendido o amor de Deus para conosco. Deus nos ama de modo apaixonado e gratuito. Aí está o jeito humano de “em tudo amar e servir” divinamente.

O evangelista João lembra que Deus nos ama de modo tão original e intenso que quer estabelecer morada em nossa vida: “Se alguém me ama, obedecerá à minha Palavra; e meu Pai o amará, e nós viremos até ele e faremos nele nosso lar” (cf. Jo 14,23). Tornamo-nos casa de Deus quando acolhemos e obedecemos sua Palavra, ou seja, quando permitimos que o Espirito trabalhe em nós e irradiamos Sua presença produzindo as boas obras que o Pai deseja. A palavra de Deus deve ser preservada como com algo muito precioso, como tesouro inegociável. Não está algemada! (cf. 2Tim 2,9). O modo mais criativo e desejado de guardá-la é vive-la com alegria.

Por Pe. Roberto Gottardo, SJ

 

No período de 22 de março a 13 de abril a Paróquia São Virgílio foi agraciada com a visita oficial do Arcebispo Metropolitano de Florianópolis, Dom Wilson Tadeu Jönck, SCJ. Sem dúvidas, foram dias felizes e inesquecíveis para os fiéis das nossas comunidades eclesiais. Nas suas intervenções repetia o “refrão” de que é importante lembrar das coisas essenciais da vida porque nós, os humanos, tendemos à acomodação e à frouxidão. A tendência a sermos mornos é real e as consequências podem ser trágicas (cf. Ap 3,16).

 

A rotina revela o pior de nós. Por isso, de vez em quando uma chacoalhada faz bem, particularmente, no universo religioso, que facilmente descamba para a mesmice e para o tradicionalismo tacanho. Há muita anemia espiritual por aí. Há muita reza e pouca libertação também. Às vezes, cultua-se a morbidez do “deus morto” e se teme o Deus da Ressurreição. Sem nenhuma pretensão de apontar todas as oportunas e necessárias reflexões do nosso Arcebispo, quero fazer pequeno elenco de alguns pontos, cuja insistência dele nas reuniões com as lideranças demonstra a preocupação da Igreja para com aquilo que é irrenunciável na vida pastoral de uma comunidade cristã.

 

Em todas as reuniões, Dom Wilson lembrava do miolo da vida cristã: “Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, e todas as coisas vos serão acrescentadas” (cf. Mt 6,33). Perguntava: “Qual o primeiro mandamento?”. Não se pode abrir mão da centralidade dos ensinamentos de Jesus e da “fé que opera na caridade” (cf. Gal 5,6). A igreja de pedra, o salão comunitário, as Pastorais, os Movimentos, etc. só tem sentido se favorecem o florescimento da vida cristã da comunidade, como lugar onde se visibiliza o milagre do reino de Deus acontecendo.

 

Neste sentido o CPC (Conselho Pastoral da Comunidade) de cada capela tem papel importantíssimo na gestão da comunidade. O acento está no termo “Pastoral”. Cabe ao CPC pensar e orientar as atividades da comunidade em comunhão com o pároco. Deve fazer reuniões regulares e registrar as decisões em ata. Foi-se o tempo dos valorosos “fabriqueros” cuja preocupação era apenas em construir e organizar as festas como se a capela fosse pequena empresa capitalista. Os sentidos de todos os membros do CPC devem estar focados na vida pastoral da comunidade. Cabe também ao CPC a responsabilidade de identificar as limitações/problemas e apontar soluções.

 

A Igreja do Brasil está apostando alto na Iniciação à Vida Cristã (IVC). As paróquias que constituem a Arquidiocese de Florianópolis devem estar em sintonia procurando ser “um só coração e uma só alma” (cf. At 4,32). É fato que a maioria dos cristãos foram apenas batizados, mas não são evangelizados. Alguns estão incomodados com as mudanças. É próprio do evangelho desinstalar e incomodar. Infelizmente, em muitas situações, o divórcio entre a fé professada e o comportamento das pessoas é deprimente. A IVC intenciona corrigir essa mentalidade superficial e, muitas vezes, viciada da vida religiosa fundada no sacramentalismo e no devocionismo inconsequentes. Quer-se, sim, pessoas apaixonadas por Jesus Cristo e comprometidas com os valores do Evangelho. As crianças necessitam da família e do testemunho dos adultos para aprender a viver segundo o desejo de Jesus. O exemplo arrasta.

 

O Dízimo, mandamento bíblico, deve ser praticado como como expressão de uma fé adulta, responsável e livre. Dizimo é essencialmente ato de fé. Não é uma taxa que se “paga” (evitar usar esse verbo) para se ter “direitos”. Dom Wilson insistiu que o Dízimo deve custear todos os gastos ordinários da comunidade. A contribuição deve ser mensal porque as despesas são mensais. Para cobrir os gastos com despesas extraordinárias (por exemplo, a reforma da capela) se faz promoções, festas, etc. Porém, cuidar para que as festas não promovam vícios, escândalos e prejuízos à vida cristã. Em alguns casos reprováveis, as bandas têm levado parte substancial dos lucros. Cuidar para que essas aberrações não se repitam.

 

Cultivar a compreensão da Igreja como Corpo de Cristo. É realmente muito importante aprendermos a viver em comunidade com espírito de “comunhão e participação”. O individualismo que grassa no mundo de hoje é nocivo e antievangélico. As nossas trinta capelas (incluindo a Matriz) constituem a Paróquia São Virgílio. A Paróquia São Virgílio, por sua vez, associada às outras 70 Paróquias, constituem a Arquidiocese. Não somos ilhas isoladas e autossuficientes. A Igreja é povo de Deus organizado, Corpo de Cristo (cf. 1Cor 12,27). A nossa força, enquanto Igreja, está no poder da união e no amor que deve cimentar todas as relações.

 

O Arcebispo reiterou nas reuniões que o Governo vê e trata a Igreja como se fosse mais uma empresa. Por isso, os rigores da legislação estão sendo aplicados sem dó nem piedade, e de modo sistemático. A voracidade do Governo para dinheiro (impostos) é absurda, e a eficiência para fazê-lo beira à perfeição. Não há mais possibilidade para práticas ingênuas baseadas nas boas intenções. Cuidar da documentação das compras e vendas (notas válidas); a transparência nas transações financeiras deve ser o modus operandi de todas as lideranças.

Não podemos esquecer de que a Igreja “existe para evangelizar, ou seja, para pregar e ensinar, ser o canal do dom da graça, reconciliar os pecadores com Deus e perpetuar o sacrifício de Cristo na santa missa, que é o memorial da sua morte e gloriosa ressurreição” (Papa Paulo VI). Porém, o princípio e fundamento da missão de todo batizado deve se inspirar nas palavras de Jesus: “Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando… E o que eu vos mando é que vos ameis uns aos outros como eu vos amei” (cf. Jo 15,14;13,34).

 

 

 

 

Por Pe. Gottardo,Sj

(1) Se levardes em conta nossas faltas, quem haverá de subsistir? (cf. Sl 129). Sem dúvida, esta pungente indagação do salmista é válida para todos os tempos e lugares como critério de reflexão acerca da impostação que estamos dando à vida. Dá o que pensar. Certamente, pulsa na alma do sábio a triste realidade: a infinita misericórdia de Deus que, ao invés de encontrar entusiasta acolhida da parte do seres humanos, confronta-se com o deserto da indiferença, da ingratidão e do fechamento. É a “divina comédia” humana.

(2) Às vezes, para justificar o injustificável, usa-se e abusa-se da misericórdia de Deus. Podemos desdobrar a arguta questão levantada pelo sábio bíblico em tantas outras perguntas. Via de regra, a maioria das pessoas religiosas, imaginam bastar frequentar o templo e praticar algumas devoções que está garantida a salvação. Ledo engano. Não estaria aí a raiz secreta de tanta mediocridade na vivência da fé e de tanta anemia espiritual?! Em geral, as pessoas preferem navegar em águas rasas e já conhecidas.

(3) Há pessoas que nutrem ódios figadais com vizinhos, familiares e/ou com membros da própria comunidade que, ao invés de erradicá-lo com a exigente prática do perdão, fogem e vão participar do culto/missa em outras igrejas/santuários e sem nenhum escrúpulo entram na fila da comunhão e vão comungar. Sim, e aqueles/as que flertam com o espiritismo e com outras doutrinas estranhas à fé cristã, momo se Deus fosse um ídolo a quem se pudesse engambelar. Ai de vós, hipócritas!

(4) Quantos poderiam prestar excelentes serviços à comunidade eclesial porque, além de credibilidade têm conhecimento e tempo, mas se esquivam inventado toda sorte de desculpas e mentiras! Quantos “nãos” Jesus recebe todos os dias! E os insultos!? Muitos fingem-se de “surdos” ao chamado de Jesus. Quanta omissão! Quanta cegueira! São faltas graves e clamorosas. Enquanto isso o Reino padece violência e deixa de frutificar.

(5) É fato que para muitas pessoas “religiosas” a ignorância é sinônimo de felicidade e/ou como diz o historiador Leandro Karnal: “a ignorância é uma benção”. Porém, Ignorantia legis neminem excusat (“a ignorância da lei não desculpa ninguém”). Vive-se uma religião de fachada quando não legalista e descolada da vida. Ostenta-se belas frases/símbolos religiosos nas camisetas, nas casas e nos automóveis, mas as atitudes de muitos continuam sendo demoníacas. O apóstolo Tiago lembra que “os demônios também creem” (cf. 2,19), mas não seguem os ensinamentos de Jesus.

(6) Quantos “bacanas” buscam a igreja como se fosse um mercado, ou seja, buscam-na apenas nos momentos críticos e emergenciais da vida; outros, apenas por interesse em receber os sacramentos; há ainda os farsantes, ou seja, aqueles religiosos “nominais” que além de não agregarem nada à comunidade espalham a cizânia da divisão e da idiotia. Pior: sabotam e sentem alergia a qualquer vento de renovação. São Paulo adverte: “Não vos iludais: de Deus não se zomba. O que o homem semear, isso colherá” (cf. Gal 6,7).

(7) Há uma ação demoníaca deveras palpável e comezinha que atinge cruel e duramente àquelas pessoas que se dispõe a servir o Reino com o coração aberto e alegre. É a maledicência e a crítica corrosiva e covarde daqueles que tenazmente se recusam a arregaçar as mangas. E como são agressivos, invejosos e arrogantes! Haja fé para permanecer firme na missão! É preciso ter muita intimidade com o Senhor para suportar os vômitos de Satanás. Não foi à toa que Ele advertiu os discípulos: “Se o mundo vos odeia, sabei que, antes de vós, odiou a mim” (cf. Jo 15,18).

(8) Há também aqueles/as que assumem atividade pastorais como se fizessem um “favor” à Igreja. Uma vergonha! E aqueles/as que fazem apenas para inflar o ego e para aparecer. E os murmuradores de plantão? Realmente, “se levardes em conta, Senhor, as nossas faltas, quem haverá de subsistir?”. No entanto, em meio às montanhas de cascalho há pérolas, há pessoas que rezam, trabalham e se comprometem efetivamente com a construção do Reino de Deus. São os tesouros da Igreja. Essas fazem a diferença.

(9) Falta-nos consciência. Falta-nos fé. Falta-nos amor. Falta-nos contrição verdadeira. Falta-nos o sincero arrependimento. Falta-nos a compunção de coração. Falta-nos a “dor e a vergonha” dos nossos inúmeros pecados. Numa palavra: falta-nos “vergonha na cara” (cf. Dn 9,7). “Muitos se portam como inimigos da cruz de Cristo – e da Igreja -, cujo destino é a perdição, cujo deus é o estômago, sua glória está no que é vergonhoso…” (cf. Fil 3,18-19). E assim muitos vão vivendo quais cabritos! Como vão se apresentar diante de Deus no dia do justo Juízo?! This is question.

“A felicidade não está apenas dentro de nós nem fora de nós, mas sim em nossa união com Deus” (B. Pascal).

Indubitavelmente, Jesus foi e continua sendo um revolucionário extraordinário. Suas palavras ardem e perturbam porque fustigam as mentalidades empedernidas. À Luz das Bem-aventuras de Lucas (cf. Lc 6,20-26), podemos afirmar que não é justo que alguém tenha alimento em abundância enquanto muitos morrem de fome. Ai de vós, ricos, que fingem não ver e/ou não saber que milhões de pessoas são humilhadas pela política da exclusão social e da concentração de renda, e milhões de crianças morrem por causa das injustiças.

Não é justo que vocês, ricos, se banqueteiam, se divirtam e esnobam, rindo das desgraças dos pobres e dos sofredores. Ai de vós, ricos, porque Deus faz e fará justiça e não terá misericórdia com quem não usou de misericórdia. “Pobre”, segundo M. Pedron, são as pessoas necessitadas e vulneráveis; são as pessoas que imploram ajuda de Deus e dos homens. O “rico” via de regra não necessita de ninguém.

É impossível seguir os ensinamentos do profeta de Nazaré e todos elogiarem; quem serve o Reino buscando recompensa e/ou interesses submete-se às expectativas do mundo, assemelham-se ao camaleão que se adequa a tudo para fugir dos embaraços e dos conflitos. Jesus não endossa o infantilismo: “Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás é apto para o Reino de Deus” (cf. Lc 9,62).

Quem assim procede vende a própria alma e o cérebro a Satanás. O cristão que se comporta assim está sabotando a força revolucionária do evangelho, está negando Jesus e adulterando a Palavra de Deus. O medo do comprometer-se com as exigências do batismo é pecado grave! E as mentiras que inventamos para não fazê-lo!? Via de regra os “ricos” gostam de ser servidos e não de servir.

Talvez o projeto de Jesus possa parecer irrealizável, mas se trata de projeto sobre o qual todos devemos nos confrontar e nos olharmos no espelho, e ver até que ponto somos sinceros e verdadeiros conosco, e até que ponto somos radicais e autênticos com a verdade que professamos. Se o evangelho de Jesus não arder na consciência está sendo falsificado.

Com a proclamação das Bem-aventuranças torna-se claro que Jesus desejava mudar o mundo, a ordem social vigente do seu tempo. O problema é que, por medo, má intenção e/ou por cumplicidade, tendemos a adocicar o poder libertador da mensagem do evangelho. Jesus trabalhou intensa e incansavelmente para instaurar o reino de Deus nesta terra, e não para depois da morte. Pagou caro por isto. Sua Palavra continua ardendo…

Nosso maior pecado é termos o coração de rico, ou seja, não confiarmos em Deus, mas apenas nas nossas forças e nas ideologias de plantão. Pior: imaginarmos que somos deuses. Por isso, não apenas nos tornamos cúmplices das injustiças, mas hospedamos e damos guarida ao Maligno em nós. Dom Helder Câmara reagiu àqueles que têm preguiça de pensar: “Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo; quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista”.

“Felizes, vós que sois pobres, porque vosso é o Reino de Deus!”. É o desejo de Deus que todos seus filhos/as vivam e saboreiem todos os dias a alegria de ser feliz. No entanto, ser feliz não se confunde com consumismo nem com o acúmulo de coisas. “Felicidade é quando o que você pensa, o que você diz e o que você faz estão em harmonia” (Gandhi). A felicidade é o caminho, não a meta; é saber “curtir” o tempo presente.  No Paraíso não haverá lugar para quem não soube viver na terra.  

Por Pe. Gottardo,SJ

Neste período de férias e de descanso que se inicia (para quem pode!), no qual a distração muitas vezes prevalece sobre a atenção e a sensibilidade para com os outros, não esqueçamos de cultivar a “vida segundo o Espírito”. Santo Inácio insistia que aprendêssemos a ver/contemplar e a encontrar Deus em todas as coisas. Que não sejamos subtraídos pelo “mundanismo” (Papa Francisco).   

O Senhor Jesus, após cansativa jornada de serviços missionários disse aos vossos amigos: “Vinde à parte, para algum lugar deserto, e descansai um pouco” (cf. Mc 6,31). Depois de uma estafante atividade pastoral, cheia de desafios, mas também de bons frutos, é importante parar um pouco.  Que este tempo de férias e de descanso, seja para todos um período de revigoramento físico e espiritual, capaz de dar um novo ânimo à vida de todos.

Nós te pedimos, Senhor, para que protejas a criação de todas as formas de agressão e de violência.

Proteja e abençoa também todas as pessoas e famílias que não podem descansar por tantas razões.

Que esta Terra, obra Vossa, Senhor, que nos destes possa ser realmente a casa comum para todas as pessoas, sem a vergonha dos muros que dividem e marginalizam.

Que o mar, as montanhas, as planícies, os lagos e todos os lugares que as pessoas buscam para descansar neste tempo de férias, sejam lugares cujas paisagens ajudem a contemplar a beleza da criação e se tornem espaços de reflexão, de oração e de encantamento.

Que a beleza de Deus estampada na criação possa nos inspirar para construirmos um mundo mais justo, belo e fraterno.

Ó Jesus, Sol que ilumina as mentes e os corações de todos:

Suscite em nossos pensamentos e ações o calor do amor generoso e fecundo que procede de Vós.

Torne-nos capazes de irradiar no mundo a ternura e a doçura do Verbo que se encarnou no seio da menina de Nazaré.

Maria, Mãe das estações da nossa vida, obtêm-nos junto a Jesus, a graça do discernimento e da paz, sempre em conformidade com a vontade do Pai.

Que este tempo maravilhoso de descanso se torne ocasião imperdível para fazermos o bem e manifestar nossa gratidão por tantas bênçãos recebidas; seja também um tempo útil para fazermos novas amizades e para conhecermos coisas novas. Alvissaras!

Conceda-nos a alegria de continuarmos sendo testemunhas do amor, da esperança e da luz, não obstante imersos num mundo ferido pelas trevas do medo, da mentira e da indiferença.

Saborear Deus, saborear a bondade da criação… O verão presta-se muito particularmente, em qualquer lugar onde estivermos, a nos dispormos a saborear a bondade do Senhor através da beleza das criaturas. Paisagens, elementos naturais, animais, astros, etc. E, no cume, as pessoas que encontramos, todas criadas à imagem e semelhança do Criador!

Que assim seja.

Por Pe. Gottardo,SJ

San Torpete, paróquia no coração de Gênova, não celebrará o Natal de 2018”. A declaração é do pároco, Pe. Paolo Farinella. Desde 2005, aquela igreja foi confiada a ele com a missão de torná-la um “centro cultural” e uma referência de hospitalidade aos migrantes que fogem da fome, da perseguição e das guerras. (A presente reflexão são recortes – com livres adaptações – do texto publicado no site: http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/585310.

No entanto, “de tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus…” (Rui Barbosa) no mundo e, particularmente, na Itália, o pároco resolveu radicalizar: Não haverá celebração do Natal em 2018. Decisão impactante e triste. Mais. Aproveita o ensejo e faz afirmações duras, ousadas e cortantes sobre o modo como estamos celebrando as festas “cristãs”. São palavras cáusticas, mas não inoportunas.

Com profunda tristeza reconhece que o Natal não é mais o Natal cristão: não é mais “memória” do nascimento de Jesus, mas um cínico fato comercial, misturado com ritos e liturgias repetitivos, “mercadorias à venda” no pagão “espírito de Natal”, sequestrado pelo mercado neocapitalista. O “mistério do Deus que vem” se reduz a uma religião civil e pagã, circunstância da qual Jesus Cristo, em muitos ambientes e famílias, é excluído e expulso.

Muitos católicos, de fato, não acreditam que o Natal seja a consciência da “proximidade de Deus” para construir uma nova humanidade onde triunfe o direito e a justiça. Eles se contentam, culpavelmente, com a fabulazinha inócua do presépio, que, entre animais, artesanatos, luzes, bonecos e engenhocas de engenharia hidráulica, faz do “mistério fundamental da fé cristã”, a Encarnação do Filho de Deus, um instrumento de alienação em benefício de crianças e adultos infantis, que, embora batizados, só entram em uma igreja nessa ocasião. Turistas do religioso folclórico. Que vergonha!

Denuncia que os cristãos são cúmplices da degradação do Natal, porque a memória do nascimento de Jesus não tem nada a ver com o Natal que, via de regra, celebramos. Vê uma contradição absurda e condenável: o Natal é transformado em saga camponesa de montanhas de presentes e presépios, enquanto que “os pobres Cristos” morrem de fome e de frio, e os “Herodes” se divertem e banqueteiam-se nas orgias do consumo e nas frívolas vaidades.

Quanto cinismo! E quanto desperdício acontece! Quanta comida é jogada fora, enquanto, nas mesmas ruas, “Jesus, o migrante dos migrantes”, morre à míngua e na humilhação ao som do canto Tu scendi dalle stelle al freddo e al gelo (“Tu desces das estrelas ao frio e ao gelo”). Da boca de Simeão aprendemos: “Este menino será um sinal de contradição” (cf. Lc 2,34). E por que em muitos ambientes a festa de Natal se tornou uma pasmaceira!? Dá o que pensar.

Ao analisar os decretos e as leis bem elaboras e justificadas com sofisticação pelos “Herodes” de plantão, o indignado Farinella afirma que por trás das palavras bombásticas, confusas e imorais das leis (“xenófobas”, “elitistas” e “excludentes”) esconde-se a vontade descarada de atacar “os migrantes”, justamente às vésperas do nascimento de Jesus, migrante perseguido por excelência que teve de fugir para o Egito para não ser aniquilado pelos podres poderes deste mundo. Onde estão os cristãos!?

Com que direito tantos batizados podem pretender celebrar o Natal de Jesus num ambiente (país) que, sem esboçar qualquer resistência, expulsa pessoas, muitas vezes, em nome de Deus? Como é possível abrir as igrejas e se entreter com canções de ninar, “Tu scendi dalle stelle”, cantos gregorianos, presépios infames, quando, do lado de fora, o verdadeiro Cristo é ofendido, torturado, vilipendiado, vendido, esbofeteado e morto, como o “Homem das Dores” do profeta Isaías? (cf. Is 53).

Só nos resta assumir o único gesto de dignidade que sobrou: a nossa consciência oposta como bastião de objeção total com ato público, radical, disruptivo e inequívoco: a Igreja de San Torpete em Gênova ficará fechada, porque um Natal sem Cristo, um Natal sem Deus é um Natal sem Homem.

Que a igreja fechada à celebração do Príncipe da Paz e aos pobres possa estimular o pensamento crítico, a reflexão dos fiéis e daqueles que têm consciência de que o Natal é “Deus-conosco-Emmanuel”. Profético!

Por Pe. Gottardo,SJ

Estamos no tempo litúrgico do Advento. À luz da percuciente reflexão do teólogo, Marco Pedron, recolho alguns tópicos interessantes sobre a ação da palavra de Deus que se movimenta em direção a João Batista, no deserto, e ganha a máxima visibilidade histórica, na Encarnação do verbo no ventre de Maria (cf. Lc 1,26-38).

A palavra de Deus foi dirigida a João, no deserto” (cf. Lc 3,2). Indubitavelmente, João Batista foi uma figura fundamental para Jesus. Foi seu iniciador e provavelmente também seu discípulo. Historicamente, Jesus considerava o Batista como mestre e alguém superior a ele, fez-se batizar por ele para obter o perdão dos próprios pecados. Ele se considerava um dos muitos em Israel que queriam se converter para escapar do iminente e severo juízo de Deus. Depois, Jesus assumiu a própria vocação e se afastou de João (cf. Mt 11,2-15; Lc 7,18-30).

“No décimo ano do império de Tibério César…”. O evangelista Lucas, como os grandes escritores de seu tempo, enquadra a história que está ocorrendo na grande história. Faz questão de elencar os nomes dos soberanos do seu tempo: políticos e religiosos (cf. Lc 3,1-3). Um dado salta aos olhos: Deus não desce onde os grandes deste mundo vivem e exercem seus podres poderes.

A palavra de Deus não é dirigida no “deserto” dos palácios. Antes, Deus desce e dirige sua palavra libertadora ao capelão que atua na prisão e “vê” diante de si não criminosos malditos, mas seres humanos; Deus desce e dirige sua palavra luminosa sobre pessoas que não obstante as hostilidades e conflitos de interesses acreditam na construção do reino da paz e da justiça; Deus desce e dirige sua palavra sanadora às famílias que para salvar a santidade do matrimônio decidem construir pontes ao invés de muros, decidem perdoar que alimentar mágoas e ressentimentos.

A palavra de Deus desceu sobre João, filho de Zacarias, no deserto, e o tornou Precursor. Pedron observa que o verbo “descer” (gignomai, em grego) também significa “nascer, gerar”. É um encontro vivo, que transforma, o que faz florescer e gera seus frutos. Após essa descida, o Batista parte para toda a região para pregar.

Quando a palavra de Deus, no começo da história, desceu sobre a criação surgiu o céu e a terra e todos os seres vivos. Quando a palavra de Deus, através do anjo Gabriel pousou sobre Maria, Jesus foi concebido. Quando a palavra que desceu sobre João o impele a profetizar e preparar os caminhos do Senhor. Efetivamente, Deus quando intervém produz uma nova criação e ‘renova a face da terra’. Portanto, o encontro com Deus é sempre um encontro que recria, que transforma e faz germinar o novo. É êxodo, é movimento de saída.

Ouvir a palavra de Deus implica “comê-la, mastigá-la, assimilá-la” (cf. Ez 3,1-3). Quem o faz jamais será o mesmo. A palavra de Deus quando lida e saboreada produz mudanças incríveis e abre os sentidos à Vida que pulsa e quer expandir-se. Há o conhecido e clássico episódio na vida de São Francisco de Assis: “Francisco, vai e reconstrói a minha igreja casa que, como vês, está ruindo”. Após ouvir este pungente apelo não foi mais o mesmo. No começo não sabia direito do que se tratava, mas com o tempo reconheceu tratar-se da palavra de Deus.

Quantas palavras ouvimos durante uma jornada! Mas a palavra de Deus não se confunde com elas. Quantas palavras religiosas nós pronunciamos em nossas vidas! Mas a palavra de Deus não se reduz a elas. Quantas vezes ouvimos o evangelho! Mas a palavra de Deus sempre nos desafia ao magis, a superar-nos e a reinventarmo-nos.

A palavra de Deus é aquela palavra que penetra nas nossas profundezas, sacode a nossa consciência, às vezes, entorpecida (é sempre desestabilizadora) toca as feridas e nos faz encarar as nossas contradições. É aquela palavra/experiência que sempre vem à mente, mesmo que não saibamos o porquê; ela ressoa, perturba, chama e nos arranca das zonas de conforto. É a palavra que não nos deixa indiferentes. É essa palavra que cria o novo, faz crescer e faz emergir o “eu” criado por Deus.

São Paulo expressa de modo magistral o que é a palavra de Deus: “A palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes; penetra até dividir a alma e espírito, junturas e medulas. Ela examina as disposições e as intenções do coração. E não há criatura que possa se esconder à sua presença. Tudo está nu e descoberto aos olhos daquele que devemos prestar contas” (cf. He 4,12-13).

A palavra de Deus, portanto, não é uma palavra entre tantas outras! Ela é performativa, ou seja, por ser “viva e eficaz” fecunda a realidade e se torna evento capaz de recriar o mundo e conduzir à salvação quem a ela se abre e a acolhe.